Lojista 432

45 Móbile Lojista 432 | Setembro 2026 | Ano XLIV No topo dos credores moveleiros estão a Linoforte, de Osvaldo Cruz (SP), com R$ 77,6 milhões a receber, a Itatiaia, com R$ 45,9 milhões, e a Móveis Europa, com R$ 34 milhões. Os dez maiores credores concentram R$ 295,1 milhões, mais de 70% do total devido ao setor. Fabricantes de colchões como Umaflex e Herval também aparecem na relação. Entre os fornecedores de matéria-prima da cadeia – não incluídos nesse total de R$ 412,6 milhões – Dexco e Eucatex somam juntas mais de R$ 27 milhões em painéis. Em Arapongas (PR), polo moveleiro do Paraná, a conta preliminar é de R$ 70 milhões em prejuízo potencial, segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas (Sima), José Lopes Aquino. “O valor representa uma avaliação inicial e o prejuízo total pode ser amenizado porque parte das empresas conta com seguro de crédito”, disse Aquino, ao lembrar que o sindicato ainda não tem números consolidados sobre a negociação de cada fábrica com o grupo. DA JUSTIÇA AO FORNECEDOR O pedido, porém, ainda não foi aceito pela Justiça. Em decisão de 19 de agosto, a juíza Tainá Maria Leonardo de Oliveira, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, determinou uma verificação prévia antes de decidir sobre o processamento da recuperação. A administradora judicial nomeada, a ACFB, tem até 30 dias após aceitar o encargo para checar se os dados apresentados pela Casas Bahia correspondem à realidade da empresa; a companhia tem dez dias para completar a documentação exigida. Enquanto o processamento não sai, a proteção contra credores já está em vigor. Em 28 de agosto, a juíza formalizou a antecipação do stay period, com efeitos retroativos a 19 de agosto e validade de 180 dias, até 15 de fevereiro de 2027. A decisão respondeu a uma corrida de credores contra os ativos do grupo, que bloqueou cerca de R$ 9 milhões em poucos dias. O BTG Pactual teve 24 horas para restabelecer o acesso às contas da companhia, sob multa diária de R$ 100 mil, e as adquirentes de cartão Cielo, Getnet e Rede, até 48 horas para liberar os valores retidos. Ficou mantida também a proteção prática já concedida a quem vende para a rede: continua proibido suspender por conta própria serviços essenciais à operação, cortar mercadoria já comprada ou rescindir contrato só porque a empresa está em recuperação. Descumprir as medidas custa multa diária de R$ 50 mil. Esse desenho é típico do estágio inicial de qualquer recuperação judicial, explica a advogada e sócia da área empresarial e cível do Duarte Tonetti Advogados, Beatriz Fardin. Segundo ela, uma vez aceito o pedido, “a empresa segue operando normalmente. As lojas permanecem abertas, as vendas continuam acontecendo e a administração do negócio segue sob responsabilidade dos seus gestores”, com o processo passando a ser acompanhado por um administrador judicial nomeado pelo juiz. Amudança mais sentida por quem fornece é exatamente essa suspensão temporária de cobranças e execuções relacionadas às dívidas incluídas no processo – o stay period que a Justiça acaba de fixar em 180 dias. “Essa medida funciona como um fôlego financeiro para que a companhia possa reorganizar suas finanças, preservar o capital de giro, honrar compromissos essenciais e implementar medidas de reestruturação”, afirma Beatriz. As dívidas anteriores ao pedido entram no plano de recuperação e podem ser renegociadas, com novos prazos e carências. Já as compras feitas depois de 16 de agosto seguem a regra normal, com pagamento em dia. É por isso, segundo Beatriz, que fornecedores costumam manter a relação comercial com empresas em recuperação, ainda que, “em alguns casos, adotem condições mais conservadoras, como redução dos prazos de pagamento ou exigência de maiores garantias”. O fechamento de lojas, reforça a advogada, faz parte da mesma lógica de reestruturação e não deve ser lido como sinal de encerramento das atividades: a medida busca “reduzir custos, eliminar operações que geram prejuízo e concentrar investimentos nas lojas mais lucrativas e nos canais de venda com melhor desempenho”. Processada a recuperação, a Casas Bahia terá 60 dias para apresentar o plano aos credores. Depois vem a verificação dos créditos e, havendo objeções, a assembleia geral decide se aprova a proposta. Se for rejeitada, a recuperação pode virar falência – a lei prevê alternativas, como o cram down, mecanismo que permite ao juiz homologar o plano mesmo sem unanimidade dos credores. CONJUNTURA A crise não é um evento isolado entre os clientes da indústria moveleira. Um dia antes, em 15 de agosto, a rede Marabraz também pediu recuperação judicial, com passivo estimado em R$ 140 milhões. Tok&Stok, do Grupo Toky, e a Mobly negociam dívidas superiores a R$ 1 bilhão desde 2025. No primeiro semestre de 2026, os pedidos de recuperação judicial no varejo cresceram 20,4% ante igual período do ano anterior, segundo a consultoria RGF, movimento associado à Selic em 14% ao ano. O episódio também chamou atenção do lado do consumidor. Em 25 de agosto, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) abriu monitoramento de mercado sobre a Casas Bahia, Tok&Stok e Marabraz para acompanhar eventuais práticas lesivas. O órgão reforçou que pedir recuperação judicial não cancela automaticamente compras, contratos e demais obrigações de consumo, inclusive o dever de pagamento – mensagem que vale tanto para quem compra quanto para quem vende para essas redes.

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