Lojista 430

35 Móbile Lojista 430 | Julho 2026 | Ano XLIV primeiro semestre de 2025 e mapeou mais de 120 táticas ativas de fraude no comércio digital brasileiro, atualizadas semanalmente. Os golpes de compra representaram 45,1% de todas as fraudes digitais registradas no período, o segmento mais expressivo entre todas as categorias. O perfil geográfico também interessa ao varejista moveleiro. Entre os estados com maior proporção de vítimas em relação ao volume de transações Pix, o Distrito Federal aparece em primeiro lugar. Rio Grande do Sul e Santa Catarina ocupam o segundo e o terceiro lugar, seguidos por Minas Gerais e Paraná. São exatamente os estados que concentram algumas das principais praças do varejo moveleiro brasileiro. PROFISSIONALIZAÇÃO QUENINGUÉM ESPERAVA O dado que mais revela a transformação em curso está em outra frente. O percentual de fraudes executadas por meio de CNPJs laranjas praticamente dobrou em um ano, saltando de 34% em maio de 2024 para 67% em maio de 2025, segundo o levantamento da Silverguard. Na prática, isso significa que o golpista que copia o nome e a identidade visual de uma loja pode estar operando por trás de um CNPJ ativo, o que confere aparência de empresa real à fraude. O consumidor que resolve checar encontra uma “empresa” do outro lado e não desconfia. O crime se profissionalizou. Esse movimento tem nome próprio no ambiente de segurança digital: Fraud-as-a-Service. Em marketplaces clandestinos, golpistas sem qualquer conhecimento técnico compram kits completos que incluem listas de dados de consumidores, modelos prontos de sites falsos visualmente convincentes, manuais de engenharia social e bots que automatizam os ataques em escala. Os pacotes vêm com cursos on-line, acesso a grupos fechados em aplicativos de mensagens e suporte técnico para garantir que a fraude seja bem executada. Alugar ou comprar um CNPJ tem custo, e os criminosos calculam o retorno sobre o investimento com a mesma frieza de qualquer operação comercial. O vocabulário mudou junto com a sofisticação, e termos como CAC e ROI, antes restritos ao mundo dos negócios, agora fazem parte da lógica do crime digital organizado. A pesquisa global conduzida pela empresa de segurança comportamental BioCatch com 1.440 profissionais de prevenção a fraudes em 25 países, entre eles o Brasil, coloca números precisos nessa transformação. 88% dos entrevistados acreditam que a inteligência artificial aumentou a sofisticação dos esquemas de fraude. Na América Latina, 89% das instituições financeiras pesquisadas afirmaram já ter enfrentado ataques realizados por agentes de IA, o percentual mais alto entre todas as regiões pesquisadas. E 59% dos profissionais consultados avaliam que as organizações criminosas estão evoluindo mais rápido do que as instituições que tentam combatê-las. A IA entrou no arsenal do crime antes de entrar plenamente no arsenal da defesa. O Fórum Econômico Mundial, em sua Perspectiva Global de Cibersegurança 2026, documenta que atores criminosos estão explorando a IA generativa para automatizar e escalar ataques de engenharia social, criando e-mails de phishing realistas, deepfakes de áudio e vídeo e documentação falsificada capaz de enganar tanto os mecanismos tradicionais de detecção quanto o olho humano. O consumidor que recebe uma oferta gerada com esse nível de sofisticação tem muito menos chance de identificar o golpe do que tinha dois anos atrás. A dimensão global do problema ajuda a calibrar o alarme. Segundo o Relatório Global de Crime Financeiro 2026 da Nasdaq, estima-se que US$ 4,4 trilhões em recursos ilícitos circularam pelo sistema financeiro global somente em 2025, aumento de 42% em relação a 2023. A fraude respondeu por aproximadamente US$ 579,4 bilhões desse total. Segundo a Global Anti-Scam Alliance, as perdas estimadas com golpes e fraudes digitais no mundo superaram US$ 1 trilhão, equivalente ao PIB da Holanda. Entre os países com maior prejuízo proporcional ao PIB, o Brasil aparece em nono lugar no ranking global. O País está entre os dez mais afetados do mundo, e o comércio digital é uma das principais portas de entrada para esse tipo de crime. GOLPE QUE A IA RECOMENDA Há um episódio recente que torna o problema ainda mais concreto para o varejo. Uma investigação publicada pelo jornal britânico The Guardian em junho de 2026 revelou que o ChatGPT chegou a sugerir lojas falsas e produtos inexistentes em respostas de compra. O caso foi identificado pela empresa de segurança Ask Silver, que encontrou páginas fraudulentas imitando marcas britânicas de móveis e decoração aparecendo nas respostas do chatbot quando consumidores pesquisavam pelos nomes das marcas. Os golpistas haviam criado páginas otimizadas para serem absorvidas pelos modelos de linguagem como fontes legítimas, num processo que pesquisadores chamam de envenenamento de dados, ou AI poisoning. A firma de segurança Huntress confirmou, em março de 2026, que esse tipo de ataque está em circulação ativa, com invasores publicando páginas falsas especificamente para contaminar resultados de IA. A OpenAI removeu os endereços após ser notificada, mas a estrutura que viabilizou o golpe permanece intacta. Para o varejista de móveis, a implicação é direta. O consumidor que faz uma busca comum no Google pode receber uma recomendação gerada pelo Gemini, a ferramenta de IA da própria plataforma, que aparece no topo dos resultados com aparência de fonte confiável. Quem busca diretamente em

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