Fornecedores 361

28 FORNECEDORES SOB MEDIDA 361 DOCUMENTAR NÃO É O MESMO QUE PREVENIR Se o debate sobre a jornada ainda tra- mita, a NR-1 já é obrigação presente. O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) é o documento em que a empresa registra riscos do ambiente de trabalho e medidas para controlá- -los – e a nova redação passa a exigir a inclusão dos riscos psicossociais nesse inventário. Há um período inicial de 90 dias de fiscalização mais orienta- tiva, esclarece a advogada trabalhista e previdenciária Priscila Arraes Reino, especialista em doenças ocupacionais e autora do livro “Burnout tem lei”. Mas Priscila destaca o que está em jogo: “O maior risco não é apenas uma multa. É a empresa não conse- guir mostrar que tomou medidas para prevenir o adoecimento dos seus tra- balhadores caso surjam afastamentos ou processos judiciais no futuro”. A mudança trazida pela norma é que empresas não podem tratar saúde mental como tema exclusivamente individual. “Antes, muitas faziam isso. Agora, a norma deixa claro que a or- ganização também precisa olhar para fatores do ambiente de trabalho que podem contribuir para o adoecimen- to. Se ela não avaliou os riscos, não ouviu os trabalhadores e não adotou medidas de prevenção, fica mais difícil demonstrar que fez a sua parte”, diz Priscila. A norma não cria responsa- bilidade automática sobre todo caso de ansiedade ou depressão, mas aumenta o peso sobre empresas que não estruturaram prevenção. Com 25 anos de atuação na defesa de trabalhadores com doenças ocupacionais, Priscila descreve um padrão nas indústrias que acabam condenadas: sinais de alerta existiam, como aumento de afastamentos, alta rotatividade, queixas sobre excesso de trabalho e conflitos com liderança, mas não houve investigação de causa e correção de rota. “O que costuma fazer diferença não é a quantidade de documentos produzidos, mas a capacidade da empresa de transfor- mar as informações que ela coleta em mudanças reais na organização do trabalho”, afirma. Na prática, evidenciar não é produzir mais papel, é conseguir demonstrar que a empresa enxergou o risco e agiu. O advogado e pesquisador Adriano Januzzi, especialista em riscos psicossociais da Associação Conselhei- ros TrendsInnovation, traduz o diag- nóstico em termos práticos: “Fizeram reunião, mas não há ata. Treinaram, mas não há conteúdo nem avaliação. Mudaram a meta, mas não documen- taram o motivo. Sabiam que havia sobrecarga, mas não criaram plano de ação”. No contencioso acidentário, a ausência mais grave é a desconexão entre risco conhecido e providência adotada – quando aparece padrão de afastamentos no mesmo setor ou metas incompatíveis com o quadro disponível, a empresa precisa demons- trar que enxergou e reagiu. Januzzi afirma que o caminho para indústrias de médio porte começa pelo simples bem-feito, como mapear quais setores têm maior pressão de prazo, mais horas extras, mais afastamentos e mais conflitos. “Não é apenas cadeira, bancada e postura. É a forma como o trabalho é organiza- do”, define. A partir daí, montar uma matriz de risco psicossocial por setor e definir medidas concretas, como ajus- te de meta, redistribuição de equipe, revisão de escala e canal de registro. “O erro é criar um formulário paralelo que ninguém preenche e que não muda nenhuma decisão”, alerta. NO CHÃO DE FÁBRICA: QUEM JÁ ESTAVA FAZENDO Na Capital Nacional Moveleira, al- gumas indústrias relatam que não esperaram a norma entrar em vigor GESTÃO DE PESSOAS Divulgação Caemmun Reunião de equipe no chão de fábrica da Caemmun: a liderança próxima é apontada pela empresa como peça central na construção de um ambiente saudável

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