Fornecedores 357
32 FORNECEDORES SOB MEDIDA 357 JORNADA DE TRABALHO PRODUTIVIDADE E VAREJO Na visão de Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, ecossistema de consultorias e serviços para negócios de varejo, o debate sobre jornada ignora a variável central do quanto o Brasil e a popula- ção ganhariam se fosse melhorado a produtividade antes de reduzir dias e horas trabalhados. Segundo ele, a pro- dutividade média no Brasil é das mais baixas quando comparada aos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e, até mesmo, em relação a alguns países da América do Sul. A forma usual de medir produtivi- dade para países é a produção total medida pelo PIB e considerando o vo- lume de trabalho em termos médios por horas ou pessoas empregadas. Para comparar diferentes economias, usa-se o PIB por hora trabalhada em US$ ajustado por PPP – Paridade de Poder de Compra. “O PIB brasileiro está na ordem de R$ 10 trilhões. Com cerca de 100 milhões de pesso- as ocupadas e, usando esses critérios, em média, o trabalhador brasileiro produz cerca de US$ 21,2 por hora trabalhada, segundo dados da Orga- nização Internacional do Trabalho”, diz – esse dado coloca o Brasil, uma das 10 maiores economias do mundo, na 94ª posição entre os 184 países avaliados. Na média dos países da OCDE, a produtividade por hora, dentro dos mesmos critérios, está em torno de US$ 70. Na Irlanda, esse valor é de US$ 149,3; na Noruega, de US$ 132,3; nos EUA, de US$ 97; na Alemanha, de US$ 93,8; na Ho- landa, de US$ 94,4; e, na Suécia, de US$ 89,2. Na América do Sul, pelo mesmo critério e fonte, o Uruguai atinge US$ 38, o Chile, US$ 34,4; e a Argentina, US$ 33,8. Deste modo, na visão de Gouvêa de Souza, reduzir horas sem elementos como capital investido por trabalhador, tecnologia incorporada, competên- cia na gestão de negócios, escalas alcançadas e, principalmente, qualifi- cação profissional, significa aumentar custo unitário dos produtos, pressionar despesas, forçar aumento de preços, gerar inflação, além de reduzir com- petitividade e, de quebra, estimular a informalidade. Usando dados comparativos das Contas Nacionais e tomando como parâmetro a produtividade como a relação entre o Valor Adicionado Bruto e o número de horas trabalhadas daquele setor, e considerando o Brasil como índice 100, Gouvêa de Souza apresenta comparações setoriais que mostram sensíveis diferenças. O setor de Petróleo & Gás tem produtividade na faixa 350–500; o Sistema Financei- ro, de 250 a 300; Energia, 220 a 260; Indústria de Transformação, 120 a 150; Agropecuária, 110 a 140; Comércio e Varejo, 60 a 80; e Serviços Pessoais, 40 a 60. “Na prática, a constatação é que setores intensivos em capital e tecnolo- gia são mais eficientes e atividades de- pendentes de mão de obra derrubam a média. E é exatamente nos setores do comércio, varejo e serviços pessoais que a redução de jornada teria maior impacto de custos, desequilíbrio e es- tímulo à informalidade. Bem-estar não nasce da redução de horas trabalhadas. O fator fundamental é a capacidade de gerar renda sustentável”, afirma. Países que reduziram jornada ao longo da história o fizeram depois de ganhos relevantes de produtividade e não atropelaram o processo. “Tentar inverter essa ordem, seja com que pretexto for, vai produzir desequilíbrio e distorções, pressionar a inflação e estimular a informalidade, em especial no setor trabalhista. Sem considerar o aumento do Custo Brasil e a perda da competiti- vidade no cenário internacional. E sem falar no aumento inevitável na litigância trabalhista”, diz e destaca: “O Brasil não precisa trabalhar menos. Precisa produzir mais, commais tecnologia, capacitação, investimentos e eficiência. Elementos que são críticos no setor pri- vado, mas que na absoluta maioria das vezes são minimizados no setor público. Sem produtividade, a redução de jorna- da é custo e distorção. Com eficiência, capacitação, tecnologia e produtividade, será consequência natural”. Na última atualização sobre o caso, no mês de abril, o presidente Lula enviou o Projeto de Lei que propõe o fim da jornada semanal de trabalho de 44 horas semanais em escala de seis dias de trabalho e um dia de descanso (6x1) e adoção da jornada de 40 horas em cinco dias de traba- lho e dois de descanso (5x2), com urgência constitucional à Câmara. Abmóvel defende que discussão seja tratada com transição progressiva entre cinco e dez anos, acompanhada de políticas estruturadas
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