O varejo e o governo pós-impeachment

Promessa de estabilidade política e reformas econômicas após impeachment presidencial alimentam otimismo cuidadoso em relação a todos os setores produtivos, mas comércio permanece frágil

Publicado em 27 de setembro de 2016 | 10:27 |Por: Cleide de Paula

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Já faz alguns meses que analistas alegam termos superado a pior fase da crise política e econômica que o País vem passando nos últimos dois anos. Indicadores recentes do Banco Central e da Fundação Getúlio Vargas apontam que a confiança na economia por parte dos diversos setores produtivos, bem como da população, vêm aumentando à medida que o componente político da instabilidade caminha para um desfecho após o julgamento do processo de impeachment da presidente cassada, Dilma Rousseff.

Profissionais e especialistas do comércio varejista agora olham para o futuro próximo, tentando enxergar os possíveis rumos do mandato de Michel Temer até as eleições de 2018, e como prováveis reformas econômicas severas deverão reconfigurar a economia e, portanto, o comércio e o consumo. Foi esse o tema do painel ‘E agora, Brasil?’, apresentado durante a segunda edição da Latam Retail Show – feira que reúne representantes do segmento para palestras, troca de experiências e discutir tendências, tecnologias e novidades para a venda de bens e serviços.

Esperança em números
O estabelecimento de um governo com plenos poderes até as próximas eleições já deve, por si só, restaurar um pouco da credibilidade institucional perante os setores produtivos, incluindo o comércio, e também os cidadãos. Nas palavras do cientista político e participante do painel ‘E agora, Brasil?’, Gaudêncio Torquato, o País está retornando à normalidade. “Acredito que teremos um segundo semestre ainda problemático, mas com tendência de melhora gradativa até o fim do ano, com perspectiva de inflação controlada, queda de juros mais adiante e crescimento do PIB, antes negativo e agora com projeção positiva em torno de 1,5%, ou até mais”, estima.

No entanto, para restaurar essa ‘normalidade’, a política econômica do governo que assumirá a Presidência pode passar por medidas impopulares a fim de atrair investimentos de volta para o Brasil. Tanto em sua fala na Latam Retail show quanto em conversa com a Móbile Lojista, o cientista político argumenta que Michel Temer, ao assumir o Planalto, “tem condições melhores de articulação e sustentação política no Congresso Nacional para promover as reformas necessárias na economia, como a PEC da contenção de gastos, bem como a renegociação das dívidas dos estados, que devem passar a seguir os moldes da União e basear aumentos [de impostos] no índice de inflação do ano anterior. Além de promover, por exemplo, reforma na Previdência, que significa garantir condições de aposentadoria para os ingressantes futuros”, ilustra.

Outro exemplo de questão polêmica a ser enfrentada é a possibilidade de reforma trabalhista que, segundo Torquato, garantirá “condições de empregabilidade” no cenário econômico e produtivo pós-crise. “Essas duas reformas [trabalhista e previdenciária], além da reforma tributária, são temas que, absolutamente, precisam ser enfrentados, e o presidente interino Michel Temer, por ter um diálogo maior com o Congresso, poderá ser o fiador desse conjunto de mudanças”, acredita.

O que o varejo pode fazer

Antes mesmo de o prognóstico apontado por Gaudêncio Torquato se concretizar, já há indicadores que confirmam o movimento de otimismo em relação aos negócios. De acordo com a última edição da Sondagem de Expectativas do Consumidor divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em agosto, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) cresceu 2,6 pontos percentuais entre julho e agosto deste ano, passando de 76,7 para 79,3 pontos.

A pesquisa coletou dados de 1.208 empresas do segmento de comércio no período entre 1º e 23 de agosto. De acordo com o estudo, a sensação de confiança foi impulsionada, principalmente, pela melhora das expectativas do consumidor em relação ao cenário econômico. Ao segmentar o ICC por faixa de renda, a melhora na confiança é mais acentuada entre as classes B (renda entre R$4.800,00 e 9.600,00) e C (entre R$2.100 e R$4.800,00), que concentram maior poder de compra e demanda reprimida por bens duráveis. Entre julho e agosto de 2016 a confiança dessas faixas da população no mercado subiu 3,4 e 5,2 pontos percentuais, respectivamente.

Em artigo publicado no portal Mercado e Consumo, o diretor da GS&MD, organizadora do Latam Retail Show, Marcos Gouvêa, qualifica essas expectativas ao descrever os consumidores contemporâneos como esclarecidos e empoderados, que exigirão mais valor naquilo que compram. De acordo com Gouvêa, cativar esse consumidor-cidadão, por sua vez, deve acirrar a competitividade e refinar os setores produtivos. Segundo o texto, “as empresas e empresários saudáveis, ainda que eventualmente mais debilitados, que emergem do cenário recessivo, estão mais preparados estrutural, cultural e conceitualmente para buscarem maior competitividade para suas atividades”.

‘A longo prazo, estaremos todos mortos’ A frase é do economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946), e foi citada pelo assessor técnico da Secretaria de Planejamento e administração de Curitiba e professor da Escola de Negócios da PUC-PR, Wilhelm Meiners, para resumir seu argumento de que há medidas que podem ser tomadas pelo governo nacional tendo em vista efeitos ainda este ano e no começo de 2017. “Se o governo brasileiro não salvar o curto prazo, perderá estabilidade política. Os problemas de curto prazo hoje são crescimento econômico e desemprego. A inflação vem se ajustando à meta. O câmbio e a competitividade no exterior também estão estabilizados, mas é preciso uma frente de trabalho para resolver uma taxa de desemprego tão elevada”, descreve.

Apesar de os indicadores macroeconômicos mais recentes apontarem melhoras, especialmente para a indústria e os investimentos no País, o consumo das famílias e o comércio continuam debilitados. Para Meiners, é possível e necessário resgatar essa dimensão cotidiana da máquina econômica. O economista explica ainda que a primeira medida é a redução da taxa de juros, atualmente em 14,25%. “A queda atual no consumo não é para poupar ou segurar [dinheiro]. A grande maioria está extremamente endividada, e a taxa de juros é absurdamente elevada, vetando qualquer chance de acesso ao sistema financeiro de forma correta”, esclarece.

O custo alto do dinheiro inviabiliza o crédito para empresas e consumidores, que já estão vulneráveis por conta das demissões, falências e incapacidade de repor a renda perdida. Para o professor, os agentes da política econômica no governo recém-estabelecido terão uma nova oportunidade de agir em outubro próximo, mas precisam ser sensibilizados. “Não precisamos nos subordinar à inflação da batata ou do feijão, que dependem de sazonalidade. A taxa de consumo atual demonstra claramente que as pessoas estão fazendo cortes há tempos. Já cortaram o supérfluo e estão cortando o essencial”, alerta.
Gráfico 1: Confiança do comércio e do consumidor
Período mais otimista foi entre final de 2012 e primeiro trimestre de 2013. Em abril deste ano, o indicador registrou baixa histórica em abril, e este mês começa a dar sinais modestos de recuperação por conta da expectativa de estabilização política, reformas estruturais e atração de investimentos para o País.

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FONTE: FGV
Gráfico 2: Fatores limitativos à melhora dos negócios
Tomando por base o mês de agosto nos últimos seis anos, é possível notar aumento em quase todos os fatores de empecilho para os negócios, especialmente nos últimos três anos, correspondentes à instabilidade política e econômica. Entre as categorias delimitadas pelo estudo, mobiliário e eletrodomésticos se enquadram em Varejo Restrito, que correspondeu a 47,7% dos bens comercializados durante o período de coleta de dados para a pesquisa – entre 01 e 23 de agosto deste ano.
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FONTE: FGV

(Matéria publicada na edição 332 da Revista Móbile Lojista)


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