Upcycling possibilita criar móveis reaproveitando materiais

Em tempos nos quais a preservação ambiental é uma prioridade, o upcycling é uma opção viável para uma produção voltada para a sustentabilidade e o baixo custo

Publicado em 19 de outubro de 2017 | 7:00 |Por: Thiago das Mercês

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Uma tendência que vem ganhando força no ramo da marcenaria é o upcycling de móveis. Trata-se de um procedimento em que diversos tipos de resíduos – considerados, até então, inúteis e completamente descartáveis – são transformados em novos produtos e materiais, o que agrega em seu valor monetário e na sua vida útil. O upcycling reutiliza materiais que seriam descartados, mantendo-se ao máximo a forma original do objeto, para atingir um produto final de valor e qualidade superiores.

Apesar da semelhança do termo com a, tão conhecida, “reciclagem”, existem algumas diferenças. A reciclagem abrange a coleta de produtos já descartados. Esses materiais passam por um sistema de separação e processamento – que envolve, frequentemente, o emprego de processos químicos e físicos –, até se tornarem, finalmente, novos produtos.

Divulgação 80e8

upcycling de móveis

A xiloteca, peça do 80e8, é feita a partir de uma assemblage em que são utilizadas entre dez e 15 madeiras diferentes

Sócia-fundadora do escritório criativo 80e8, a designer Antonia Almeida acredita no upcycling de móveis como uma importante alternativa de sustentabilidade. “Em mundo saturado de resíduos, esse conceito se faz necessário. Ter a chance de não ‘jogar’ mais coisas no lixo é uma ótima saída”, diz. Ainda mais em um país como o Brasil, que é uma das principais fontes mundiais de matérias-primas como a madeira, essencial para o setor moveleiro.

Para o diretor da Upcycled Brasil, Guilherme Pfeiffer, a postura de alguns empresários da marcenaria em relação ao produto é revoltante. “É lamentável ver a quantidade de madeira que se perde na logística e nos pátios dos estabelecimentos que comercializam o produto”, critica Pfeiffer.

Dados

De acordo com uma análise feita pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil produz, em média, 387 quilos de resíduos por habitante, ao ano. Este valor é próximo à média de países como Croácia (também 387) e Hungria (385). Também é superior à de México (360), Japão (354) e Coreia do Sul (358), considerados países desenvolvidos.

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Por outro lado, dos dejetos produzidos por nós brasileiros, somente pouco mais da metade (58%) é corretamente descartado, enquanto os demais países citados trabalham num piso de 96%. No que diz respeito à destinação do lixo, o Brasil está mais semelhante à Nigéria (apenas 40% vai para o local apropriado).

Uma vantagem é a não utilização de energia em nenhuma das etapas do processo, o que torna o upcycling uma prática 100% ecológica.

A situação fica ainda pior quando observamos como a produção de resíduos vem aumentando no país. Em 2015, a quantidade de lixo urbano gerada chegou a 79,9 milhões de toneladas, 1,7% a mais do que no ano anterior. Esses dados só evidenciam a importância de práticas como o upcycling de móveis para o planeta.

Upcycling de móveis

Contudo, o upcycling não é benéfico somente para o planeta. Por prezar pela utilização de matéria-prima considerada inútil, há uma redução considerável de gastos para o marceneiro. Pouco material recolhido já é suficiente para a fabricação de um grande número de peças, como destaca Pfeiffer. “Produzimos, aproximadamente, mais de cem móveis com somente uma coleta feita em uma madeireira apenas”, frisa

Divulgação 80e8

upcycling de móveis

Criação feita pela 80e8

O que torna o upcycling tão valioso para a marcenaria é o leque de possibilidades que ele abre. Cada resíduo recolhido pode ser aproveitado de infinitas maneiras, com novos significados, conceitos e usos, de acordo com as características do resíduo.

“Quem manda e vai nos dizer o que temos que fazer é o lixo”, explica o diretor da Upcycled. Para Antonia, a participação dos designers no processo do upcycling é fundamental. “O designer deve ir além desse pensamento inicial. Ele foge do óbvio, e assim agrega valor”, pontua.

Além dos fatores ecológicos e financeiros, o upcycling de móveis nada mais é que uma mudança na consciência. Isso no sentido de não aceitar mais o descarte e o desperdício desenfreado em nome do consumismo. Essa mentalidade deve estar presente, também, entre os profissionais que lidam com a madeira. “Os marceneiros estarão calcados na concepção ecológica (…), com o ‘não’ ao desmatamento descontrolado, com o ‘não’ ao esperdício”, afirma Guilherme. “É um processo que compreende andar sempre adiante”, conclui.


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