Entrevista: Fernando Belchior e o trabalho com marcenaria artesanal

Profissional da marcenaria artesanal, Fernando Belchior, comenta detalhes sobre a atividade realizada em madeira maciça no Brasil

Publicado em 5 de maio de 2017 | 16:30 |Por: Thiago Rodrigo Pereira da Silva

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Definir o que é um marceneiro é uma coisa muito pessoal para Fernando Belchior, formado em Engenharia Mecânica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, que após tentar atuar em várias áreas da formação, encontrou a felicidade na marcenaria. Formado em marcenaria na área no Canadá, estudou dez mil horas o trabalho da madeira, ressaltando que o requisito para construir uma peça de mobiliário tem que considerar durabilidade, conforto, função e forma.

Em entrevista exclusiva ao Portal eMóbile, Belchior comenta sobre o trabalho com a madeira maciça realizado em seu negócio Marcenaria Fina, a relação da madeira maciça e painéis de madeira, madeiras utilizadas, móveis curvos, maquinário, mercado e outros detalhes da atividade com madeira maciça. O marceneiro também possui uma página no Facebook no qual faz diversas postagens em vídeos explicando fundamentos da marcenaria, processo de execução de móveis, explicação sobre equipamentos, entre outros. Confira:

Portal eMóbile | Para você, qual é a definição de marcenaria e qual sua trajetória na profissão?
Fernando Belchior | Definir o que é um marceneiro por essência sempre será algo muito pessoal. Minha formação foi em Engenharia Mecânica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo mas, em determinado momento da minha vida, trabalhar como engenheiro – seja em um cargo de execução ou em gestão –, não me trazia felicidade. Aí, resolvi fazer o que eu gostava e fui para a marcenaria, trabalhar com madeira maciça.

Divulgação Marcenaria Fina

Marcenaria Fina - Fernando Belchior

Para Belchior, o móvel tem que ser confortável, tem que atender a função a que se destina “mesa é para apoiar, cadeira é para sentar”

Após a tomada a decisão, fui estudar no Canadá. A formação que tive englobava tanto os processos de produção em madeira maciça quanto o design. Assim, aprendi a pensar nos principais requisitos de uma peça de mobiliário: a durabilidade, o conforto, a função e a forma. Ou seja, o móvel tem que ser confortável, tem que atender a função a que se destina – mesa é para apoiar, cadeira é para sentar –, tem que durar a vida inteira, por estar usando um recurso nobre – a madeira, e ainda ser bonito.

Quando fiz o curso, busquei me tornar um marceneiro. Alguém que, fazendo o uso de um conhecimento de design e do processo de produção é capaz de transformar uma peça de madeira bruta em um objeto, em uma peça de mobiliário. Resumindo, a definição de marceneiro pra mim é essa: um cliente chega com um conjunto de requisitos e você foi treinado formalmente para traduzir esses pedidos em uma peça feita em madeira ou em compostos de madeiras. A partir disso, você entrega uma peça pronta, que atende aos desejos do cliente.

eMóbile | Qual é o tempo de estudo para se tornar um marceneiro?
Belchior | É um número internacional. São dez mil horas, aproximadamente cinco anos de estudo e trabalho. Infelizmente, no Brasil, o trabalho manual não é valorizado, fazendo com que aqui as pessoas fujam dessa profissão. Então, são poucos os marceneiros existentes no país e eles serão cada vez mais raros. Eu entrei na profissão sabendo do baixo reconhecimento e remuneração, mas eu a pratico porque é o que me deixa feliz. Sou meio esquisito, não busco projeção social ou realização financeira, estou procurando felicidade.

Divulgação Marcenaria Fina

Marcenaria Fina - Fernando Belchior

O marceneiro faz qualquer tipo de móvel em madeira maciça e também compõe com MDF

eMóbile | Quais tipos de móvel você consegue executar em madeira maciça?
Belchior | Eu faço qualquer tipo de móvel. Por exemplo, um guarda-roupa não pode ser feito de madeira pura maciça porque, se você pegar uma prancha de madeira pura maciça e fizer um guarda-roupa de 2 m de altura e 70 cm de largura, ele ficará muito pesado, o custo será muito alto e, além de tudo, ainda existem os problemas de deformação da madeira. É preciso saber previamente que, para certas aplicações, a madeira maciça pura não é o melhor material, tendo que utilizar um compensado, painel revertido ou até, eventualmente, o MDF.

eMóbile | É possível mesclar MDF e madeira maciça em algumas partes do móvel?
Belchior | Sim, é possível fazer combinações de painéis revertidos, compensados ou MDF, para fazer as grandes superfícies e as extremidades das peças encabeçadas com madeira maciça. Isso enobrece o móvel – deixando toda a parte da frente, que fica em contato com o usuário, mais resistente e mais bonita.

eMóbile | Existem diferenças entre a marcenaria e movelaria?
Belchior | Eu costumo fazer a diferenciar a marcenaria, a movelaria e a carpintaria. Na marcenaria, são usados todos os materiais e um alto grau de precisão. A ferramenta principal de trabalho é o paquímetro e a precisão é de décimos de milímetro. A marcenaria persegue precisão e qualidade, acima de tudo – isso pra mim é a marcenaria de verdade.

Divulgação Marcenaria Fina

Marcenaria Fina - Fernando Belchior

Belchior destaca que a ferramenta principal de trabalho é o paquímetro e a precisão é de décimos de milímetro.

Em movelaria, no geral, são usados o MDF e o MDP e a faixa de precisão é de milímetros. Não é preciso entender uma série de processos e são usadas, basicamente, três ferramentas: uma serra, uma furadeira e uma furadeira de borda. Na carpintaria a madeira maciça também é utilizada, mas não existe uma grande preocupação com a precisão e o acabamento.

O que a gente tem visto é que o mercado exige um custo menor nos produtos e a forma de alcançar esse preço é por meio de processos mais fáceis. As chapas de compensado e de MDF foram uma resposta à necessidade de entregar produtos de uma durabilidade razoável, uma aparência aceitável e qualidade a um preço mais baixo. Não é preciso de um alto grau de qualificação para fazer uma peça de MDF, assim como você precisa de um marceneiro que entenda de madeira, movimento das fibras, uma série de coisas. São profissões diferentes com requisitos diferentes.

eMóbile | Quais maquinários você utiliza? Como é feito o acabamento?
Belchior | Usamos máquinas tradicionais. Iniciamos o trabalho com a serra radial, para cortar o topo das pranchas, limpamos com escova de aço, depois o desempeno, o desengrosso, voltando para a serra circular, que irá galgar as peças e tirar a largura correta. São feitos “N” processos, é possível utilizar depois a furadeira de coluna, furadeira horizontal, tudo depende da peça que está sendo feita. É diferente do que é usado em movelaria, muito mais complexo.

Marcenaria artesanal é destaque do Fimma Marceneiro

O acabamento é feito a partir da lixa 80, indo até a 220. Em alguns tipos de peça, pode ser utilizada até a lixa 360. Logo após é feita a aplicação de massa seladora, verniz a base de microcelulose ou a base de poliuretano. Para iniciar a aplicação de verniz, esperamos um momento em que as máquinas não estão sendo utilizadas, lavamos o chão para reter a poeira, assim evitamos a contaminação da peça. Quando existe um serviço mais especializado de acabamento, como a laca, por exemplo, nós mandamos fazer em outro local.

eMóbile | Como é feita a parte curva do móvel com madeira maciça?
Belchior | Existem algumas alternativas. Pode ser feito em máquina CN, utilizando serra de fita ou fazer uma espécie de berço em MDF para receber a tupia, que será passada manualmente algumas vezes até “comer” boa parte da madeira. Depois alisa com uma plaina, raspilha e acerta com uma lixa. O processo curvado é muito mais fácil quando trabalhado em madeira maciça, uma das minhas peças favoritas é a cadeira Simples, e ela é cheia de curvas.

eMóbile | Quais madeiras você utiliza em sua marcenaria? Quem as seleciona?
Belchior | As madeiras que utilizo são basicamente as que eu encontro no mercado, as melhores para cada aplicação. Eu uso Imbuia, Jatobá, Tamarindo, Cumaru, Freijó, Jequitibá, mas depende da peça – já usei até Caxeta para uma peça simples. Todas as madeiras que uso são adquiridas de quem tem certificação FSC ou, minimamente, o documento de origem florestal (DOF).

Na hora de produzir um móvel, vou até a madeireira e escolho cada prancha que uso – prancha por prancha, já aconteceu de eu demorar duas horas para escolher. Dependendo do móvel, mostro para o cliente quais são as opções para que ele faça a escolha.

eMóbile | Hoje em dia, qual é o mercado da marcenaria artesanal?
Belchior | Para mim, a marcenaria artesanal está cada vez mais voltada para um público de elite. O preço da madeira subiu quase exponencialmente nos últimos anos. Como o número de marceneiros está sendo reduzido e não é barato formar um profissional, a mão de obra também é cada vez mais cara. Juntando esses fatores, são peças que talvez apenas cinco ou 10% da nossa população, no máximo, possa pagar. Talvez nem isso.

O que eu vejo é um encolhimento do mercado. As empresas que hoje obtém sucesso trabalham com uma combinação de design e automação – processos e escalas industriais –, fazem peças em máquinas CNC, mesmo sendo em madeira maciça. Isso pode, eventualmente, acontecer no Brasil, mas para isso é necessário que a mão de obra melhore em termos de qualificação.


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