Entrevista: Obsessão pela competitividade

Em entrevista ao portal eMobile, diretor da CNI fala que o Brasil precisa aumentar sua competitividade diante de seus concorrentes

Publicado em 11 de outubro de 2014 | 14:47 |Por: Jorge Mariano

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A edição 265 da revista Móbile Fornecedores traz uma reportagem falando da necessidade que o Brasil apresenta de adotar novas políticas industriais para aumentar a competitividade industrial. De acordo com o diretor de políticas e estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Coelho Fernandes, é necessário realizar uma reforma tributária voltada para a competitividade, assim como ficar de olho nas consequências de uma ação desse porte. Confira a entrevista completa com o diretor.

Miguel Ângelo

fernandes cni

De acordo com Fernandes, é preciso ter atenção às medidas tomadas para modificar o sistema tributário

Portal eMobile – Como foram elaboradas as propostas apresentadas pela CNI?
José Augusto Coelho Fernandes – A cada eleição, a CNI realiza um debate com os candidatos e apresenta sua agenda ao País. A grande diferença deste ano é que, como já havíamos divulgado em 2013 o Mapa Estratégico da Indústria, entendemos que deveríamos dar um passo a frente. Foram dois canais principais: pesquisas em empresas, associações empresariais e federações e por uma discussão interna nos conselhos e no Fórum Nacional da Indústria. A partir daí foi que chegamos aos 42 temas que foram desenvolvidos em formato de proposta. Estamos apresentando as instruções normativas, atos normativos e até mesmo o projeto de lei que deve ser implementado. Nesses casos, caso o governante concorde, basta assinar, porque o texto já está pronto. Obviamente não é possível fazer isso em todos os temas. É possível fazer na área de desburocratização, tributação, relações do trabalho, mas não na área de negociações internacionais, que ainda se precisa ficar no campo da estratégia.

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A tomada dessas medidas propostas pela CNI pode iniciar um processo de retomada?
Fernandes – A perda de participação da indústria do Brasil nos últimos 20 anos tem múltiplas causas. Acreditamos que uma parcela dessa perda pode ser revertida com melhores políticas no campo macroeconômico e no campo da própria política industrial. O fato é que as políticas que não privilegiam o aumento da poupança acabam tornando o País muito dependente da poupança externa em que o papel da taxa de juros alta e do câmbio valorizado assume uma condição que termina afetando negativamente o desempenho da indústria. Por outro lado, o conjunto de imperfeições que temos na agenda do custo Brasil, em especial na área tributaria, ainda cria muitas distorções. Enquanto uma empresa concorrente na Inglaterra recebe seus créditos 10 dias após a entrega da declaração ou, na média dos países europeus, em até 30 dias, no Brasil, esse sistema, no caso do ICMS, em uma compra de bens de capital, pode levar 48 meses. É muito mais perverso. As nossas empresas exportadoras também tem dificuldade de receber os créditos e acabam fazendo planos para não exportar. Isso mostra que temos de fazer um trabalho forte de melhor o ambiente doméstico nas áreas tributária, logística, de insegurança jurídica e de relações de trabalho e também de adaptação das empresas. O fato é que o mundo mudou, não é o mesmo mundo industrial das décadas de 1970 ou 1980. Nós poderíamos hoje ter o melhor ambiente do mundo mas a empresas teriam de mudar suas estratégias. Houve novos fenômenos no sistema de produção mundial, a exemplo do papel da China, da forma como as cadeias de valor se organizam no mundo e das nova tecnologias que fizeram com que as empresas tivessem que se adaptar a esse novo cenário.

Quais propostas devem ser consideradas primordiais pelo governo?
Fernandes – Estamos dando muita ênfase ao sistema tributário. É algo que afeta todas as empresas de forma uniforme e está ficando muito complexo. As soluções passam a ser muito parciais e não somam. O que é bom para um setor não é bom para outro. São distorções que fazem com que nossas empresas entrem no cenário internacional mancas na medida em que têm um sistema com muita cumulatividade e enfrentam concorrentes que não têm tanta, então já saem perdendo nessa disputa. Nossas pesquisas mostram também que nossos investimentos são onerados no seu valor em mais de 10% com custos tributários, enquanto nosso concorrente está entre 0,6% e 1,7%. Acreditamos que ao se mexer no sistema tributário cria-se condições para trabalhar em outras áreas da economia, com a de comércio exterior, que podem criar condições para um ambiente mais saudável para a indústria.

Dados da CNI mostram que 65% das indústrias brasileiras tem algum tipo de problema devido à falta de mão de obra especializada. Seria o caso da CNI em parceria com outras entidades, iniciativa privada ou governo, criar algum programa ou pensar em ações para formar essa força de trabalho?
Fernandes – Não. O tema da educação vem merecendo muita atenção até por conta da existência do Senai, que tem um programa muito agressivo de multiplicação do número de vagas e de criação de todo um novo sistema de apoio à indústria por meio dos institutos de inovação. Acredito que é um cenário que nesse momento está em transformação. O fato é que o sistema de formação profissional recebe alunos sem uma boa educação básica e isso faz com que precisem ser praticamente reeducados para receber educação profissional. A taxa de crescimento da população economicamente ativa está diminuindo e isso cria novas pressões no mercado de trabalho exigindo saltos importantes de produtividade.

Outra estatística da entidade fala da bitributação de bens reciclados, que gera quase R$ 3 bi. O senhor acredita que a mudança desse sistema pode criar uma indústria mais sustentável?
Fernandes – É um tema que está na agenda da sustentabilidade. É um tema importante para a sociedade e para a indústria. A lei dos resíduos sólidos apresenta novos desafios ao setor e temos de transformar os problemas em oportunidades, criar condições para que se possa desenvolver uma indústria mais competitiva e sustentável e que isso crie condições para aplicação e uso de novas tecnologias.

Em resumo, pode-se dizer que o próximo governo do País vai precisa atuar com força em prol de uma nova política tributária?
Fernandes – O que nós estamos chamando atenção é que o governo deve ter uma obsessão pela competitividade. Isso significa ter um sistema de gestão para enfrente o problema. Os problemas de competitividade normalmente são muito horizontais. Eles não estão apenas em um determinado ministério, estão dispersos em toda a administração pública. Além disso, nunca há uma bala de prata. É necessário fazer várias coisas para que se relacionem e passe a fazer um determinado tipo de efeito virtuoso dentro da economia. Estamos chamando atenção dos candidatos para que se organizem. Cada um tem uma característica própria mas tem de pensar que é necessário se organizar para enfrentar a competitividade. De que forma? Primeiro, definindo objetivos. O que você vai alcançar? Segundo, monitorando. Então, vou monitorar esses objetivos, avaliar a implementação, fazer a correção, ou seja, fazer o ciclo de gestão típico nos empreendimentos privados e públicos que funcionam.


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