Entrevista: Marcos Müller, presidente da CSMEM da Abimaq

Presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos para Madeira (CSMEM) da Abimaq, Marcos Müller fala sobre a indústria de máquinas com o Portal eMóbile

Publicado em 2 de novembro de 2016 | 10:05 |Por: Thiago Rodrigo Pereira da Silva

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O setor de máquinas para madeiras sofre com a oscilação do câmbio, o atual cenário da economia brasileira, o “Custo Brasil” e as linhas de crédito para investimento e de financiamento para as indústrias de móveis poderem renovar seu parque fabril. É essa a análise que faz o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos para Madeira (CSMEM) da Abimaq, Marcos Müller, nessa entrevista exclusiva ao Portal eMóbile. Confira:

Portal eMóbile – Quais são as variáveis que influenciam na compra de maquinário pelo setor moveleiro?
Marcos Müller – Para falar do setor de máquinas tem que fazer um passo atrás. O setor de máquinas depende de algumas variáveis. A primeira é a questão do câmbio. Com o câmbio alto, nosso cliente, em invés de comprar uma máquina importada, vai avaliar muito bem todas as opções internacionais. E nesse sentido a indústria nacional tem uma oportunidade na mão: de vender mais do que está vendendo. Outra variável é a própria saúde de nossa economia. Todos os níveis de fabricação de móveis estão devagar.

Divulgação

Presidente da CSMEM

“Não tem nenhum fabricante que consiga fabricar suas máquinas sem importar uma parte dela, pois o Brasil não tem uma cadeia de fornecedores completa”, destaca Marcos Müller

eMóbile – Dentro dos segmentos da indústria moveleira, como você avalia a venda de máquinas para os segmentos?
Müller – Para entender, como é dividido o setor de fabricação de móveis no Brasil, devemos segmentá-los: móveis planejados (fabricados por grandes empresas como Todeschini, Carraro, Dell Anno, Florense, etc.). A diferença destas empresas para as pequenas são os tipos de equipamentos que usam: é um nível de automação muito grande com máquinas muito versáteis, grandes e caras. Depois tem móveis planejados feitos sob medida para pequenas e médias empresas. É, de todos os mercados, o mais constante porque o pequeno marceneiro tem um volume de produção menor, ele tem um nível de gestão muito simplificado. Normalmente assume mais compromissos que ele consegue cumprir, e está sempre com o prazo de entrega atrasado. O segmento que mais sofre são as grandes empresas de móveis seriados, mais frequentes nos polos de Arapongas, Ubá, Linhares, Rio Grande do Sul e algumas de Santa Catarina. Elas fornecem para os grandes magazines e são as que mais sofreram com a crise e já enfrentaram queda de 30 a 40% do volume de vendas, que reflete no volume de faturamento e de produção. O último segmento são as poucas empresas de móveis de decoração. Além destes, há o corporativo. Elas sofrem um pouco menos com a crise, exceto as empresas que fabricam móveis para escritório.

eMóbile – Como presidente da CSMEM, como você analisa a situação dos fornecedores nacionais e os importadores de máquinas para o setor moveleiro?
Müller – As máquinas importadas, nos próximos anos, terão uma queda gigantesca no nosso país. E os fabricante nacionais, se pegarmos os quatro maiores (SCM Tecmatic, Maclinea, Giben e Usikraft), estavam em dificuldade porque estão com queda de 30% a 40% no faturamento. Não tem nenhum fabricante que consiga fabricar suas máquinas sem importar uma parte dela, pois o Brasil não tem uma cadeia de fornecedores completa, então precisamos importar parte das máquinas.

eMóbile – Como estão as linhas de crédito para o setor de maquinário?
Müller – As linhas de crédito como o Finame não é qualquer um que consegue. Não é atrativo para os bancos e entidades financeiras, então é preciso vender com recursos próprios, pois nenhum cliente tem dinheiro para pagar a vista. O fabricante de máquinas tem necessidade da capitação de dinheiro para capital de giro e paga 24% de juros ao ano. Se você está exposto ao câmbio você perde uma fortuna, se você capta dinheiro para não ficar exposto ao câmbio você paga outra fortuna, acaba jogando dinheiro no lixo. Então, a indústria é simplesmente massacrada por todos os lados, pela taxa de câmbio, pelos juros e pela própria economia, porque se o cara não compra móvel, quem dirá o fabricante de móvel comprar uma máquina.

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eMóbile – E o Finame, para o setor moveleiro poder adquirir máquinas e equipamentos com linhas de financiamento mais acessíveis?
Müller – Faço um comparativo: Alemanha, Itália e EUA são potências porque tem um banco de fomento que sustenta o crescimento das indústrias. E no Brasil nós não temos nenhum banco que fomente. Você não consegue interagir com o BNDES, porque no meio do caminho tem as agências financeiras que são os bancos. Eles intermedeiam toda e qualquer negociação, e fazem a análise de crédito dos clientes. O nosso setor de móveis, que é a ovelha negra, o patinho feio desprezado pelos bancos, não aprovando nenhum financiamento para o polo de Arapongas, por exemplo, pelo motivo de análise de crédito do setor: por considerar operação de alto risco.

Shutterstock

CSMEM

“A grande preocupação da indústria de máquinas no Brasil hoje é não perder a estrutura que nós criamos”, aponta Marcos Müller

eMóbile – E como o chamado “Custo Brasil” impacta no valor de fabricação de máquinas e equipamentos?
Müller – Uma máquina produzida no Brasil custa 37% a mais do que uma máquina produzida na Itália. A indústria brasileira de transformação está sendo massacrada.

eMóbile – O que vocês planejam de ações futuras para contornar essa situação?
Müller – São várias ações e a principal é a Frente Parlamentar de Máquinas. É lógico que se deve fazer o dever de casa, reduzir a estrutura proporcional que o mercado está absorvendo, buscar maior eficiência produtiva. Mas, da porta para fora, que é toda a pressão sobre o governo, isso posso garantir que estamos fazendo muito. Nós fabricantes de máquinas temos que nos readequar se quisermos ser competitivos, então somos tributados de maneira muito pesada. E um sistema permanente de financiamento industrial, algo permanente e não pontual como quando o governo anunciou o Finame em 2009, de maneira pontual.

eMóbile – Quais considerações finais você faz como presidente da CSMEM?
Müller – Enfim, a grande preocupação da indústria de máquinas no Brasil hoje é não perder a estrutura que nós criamos. A estrutura fabril, o know hall. Imagine quanto tempo se leva para formar um projetista de máquinas. Hoje temos empresários avaliando mudar a empresa de país, por exemplo. Somos a primeira empresa a se fabricar centros de usinagens de alta tecnologia no Brasil, e estamos avaliando se vale a pena manter a estrutura no Brasil. A matemática não está a nosso favor, é uma ciência que você toma ação baseada em números e não em emoção.


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