Entrevista: Graça Berneck Gnoatto

Publicado em 27 de dezembro de 2016 | 10:00 |Por: Guilherme Stromberg Guinski

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Líder no mercado madeireiro, a Berneck completa 65 anos em janeiro de 2017. Já são três gerações de gestores que levam a empresa no sobrenome. Para nos contar um pouco sobre as conquistas pessoais e profissionais na Berneck, o eMóbile conversou com a diretora comercial e de marketing da empresa, Graça Berneck Gnoatto. Confira a entrevista a seguir:berneck

eMóbile: Para começar, poderia contar um pouco da sua trajetória profissional até hoje? Quais os maiores desafios e conquistas?

Graça Berneck Gnoatto: Eu fui fazer faculdade nos Estados Unidos com 17 anos, curso de Administração com Ênfase em Marketing, e durante toda a minha estada lá, que foi um período de quatro anos, eu trabalhei em todos os momentos, fazia bico, mas tive um belo aprendizado quanto à responsabilidade e horários. Eu comecei fazendo atendimento ao serviço de buffet do dormitório em que eu ficava na universidade e mais para frente acabei indo para um outro braço da mesma empresa, a Sodexo Marriott, que fazia catering para a escola, então a gente servia professores, reuniões com coffee break, almoços especiais em toda a universidade, que tinha sala de eventos, a gente fazia até casamento.

Quando eu fui para lá, já sabia que eu ia voltar para trabalhar na Berneck, essa era minha missão. Eu tinha meus trocados, mas sabia que não queria fazer a minha vida nos Estados Unidos. Quando terminei a faculdade, eu voltei para o Brasil e menos de uma semana depois ingressei na Berneck, em setembro de 2001. Nessa época a empresa não tinha um departamento de marketing, quem fazia era o pessoal do comercial, e eu entrei para somar a equipe e tirar um pouco dessa carga.

Devagar fui desenvolvendo os trabalhos aqui dentro; padronizando muita coisa, desenvolvendo catálogos. Por conhecer os produtos e ter o domínio da língua inglesa, quando surgiu uma oportunidade no departamento de exportação foi me oferecido o desafio e eu topei. Eu não tinha nenhum conhecimento de exportação, absolutamente nada, foram os seis meses mais difíceis da minha vida profissional, porque eu chegava na empresa às 7h e saia às 23h, sempre com a sensação de que tinha ficado um monte de coisa para trás. Fiz diversos cursos de curta duração sobre comércio exterior e devagar, com uma equipe sempre muito boa, fui aprendendo.

Mais para frente, meu próximo crescimento dentro da empresa foi em 2008, quando a gente estava dividindo a área comercial em dois segmentos diferentes: abrimos uma gerência responsável pela indústria e outra pela revenda, aí surgiu uma oportunidade de ter uma diretoria comercial, foi quando eu assumi ainda sendo responsável por marketing e produtos. Ao longo desses diversos anos, fiz vários cursos, um MBA, muitos cursos de curta duração, fiz um estágio na Europa de cinco semanas que foi fundamental para me trazer onde estou hoje. Conheci toda a indústria de painéis na Europa, que é o berço desse produto, desde produção de papel, produção de piso, produção do maquinário para produção de painéis de madeira. Esse período foi uma bagagem muito importante que eu acabei construindo para a minha carreira.

O maior desafio o que eu tenho hoje é conciliar a vida familiar, filhos, cuidar da casa, com a vida profissional, é uma carga bastante pesada. De conquistas, eu diria que é ter uma equipe afinada, todo mundo trabalhando com transparência, respeito e, principalmente, com amor ao que faz. Essa é a minha sensação de grande conquista, poder estar trabalhando com pessoas que amam o que fazem, que trabalham realmente vestindo a camisa da empresa e fazendo o melhor que podem.

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eMóbile: E como conciliar a vida pessoal e profissional?

Graça: Aqui dentro, hoje ainda temos o meu pai, que é o presidente da empresa, ele é a segunda geração, porque o fundador foi meu avô (Bernardo von Müller Berneck). Então tem o meu pai, meu irmão que está na área industrial da unidade de Curitibanos na parte de painéis, e o meu marido, que é responsável pela divisão de serrados e toda a exportação da empresa, somos em quatro da família. Acho que na empresa a gente tem uma premissa que acaba facilitando bem essa separação, que a gente tem o lema que é “A empresa sempre em primeiro lugar”. Em qualquer decisão, em qualquer impasse sempre a gente olha para a empresa em primeiro lugar, o que é melhor para a empresa? Eu acho que essa premissa facilita muito as decisões e os impasses.

Na vida pessoal a gente sempre busca estar junto no final de semana, fazemos programação a família toda, estendida com os netos do meu pai, meus irmãos, maridos, agregados, a gente sempre busca fazer uma coisa ou outra no final de semana, com amizade e respeito.

eMóbile: Por ser uma empresa familiar, esses dois círculos acabam se misturando, no final das contas…

Graça: Com certeza. Principalmente o círculo profissional dentro da vida pessoal, esse é inevitável. Vejo nos almoços de domingo, nos encontros de sábado no final do dia, é inevitável, volta e meia a gente acaba trazendo assunto da empresa para resolver, o que eu acho que é bom, porque acaba agilizando, a gente chega na segunda-feira já com um norte.

eMóbile: Quais lições profissionais você leva para a vida pessoal, e quais conceitos pessoais você acaba aplicando na rotina profissional?

Graça: Da minha vida profissional para a minha vida pessoal o que eu acho que foi o maior aprendizado e que eu aplico é a priorização. Eu vejo na empresa uma lista tão grande de coisa para fazer, que a gente acha que não vai dar conta e o priorizar acaba facilitando bastante o passo a passo para evolução, para a gente tirar da lista aqueles itens que a gente conclui. A organização do tempo é fundamental e a própria eficiência. Esses temas eu levo para a minha vida pessoal, sem dúvidas, acabo tratando minha vida em casa como uma empresa. Da minha vida pessoal para profissional trazer leveza, alegria, entusiasmo no meu dia a dia.

eMóbile: A unidade em Curitibanos começou logo antes da crise de 2008, quando o projeto foi adiado por um tempo. Agora com a crise dos últimos dois anos, qual foi o impacto e qual o desafio de terminar projeto em tempos turbulentos?

Graça: A unidade foi planejada para três etapas fundamentais, uma era o MDF, a segunda era a unidade serrados e a terceira o MDP. Lá atrás, antes da gente ter para o projeto em 2008, Curitibanos começaria com a linha MDP, paramos por conta da crise mundial. Quando retomamos o projeto, a gente mudou para uma linha de MDF, acho que foi a decisão mais acertada que fizemos. O projeto foi andando, a última etapa foi a instalação da unidade de MDP, que começou agora em março desse ano, em meio a uma crise nacional violenta. Quando instalamos a unidade nova, foi pensando em um abastecimento da indústria moveleira do Brasil, sempre fomos, e somos, muito forte na indústria moveleira, fazia muitos anos que não existia investimento nenhum em linha nova de MDP, a última linha a ser instalada foi da Masisa, e tivemos um momento em 2013 que houve falta de MDP no mercado. A indústria moveleira brasileira queria vender mais, tinha pedido, mas não tinha produto. Por bem, acabamos optando pela decisão de fazer a instalação dessa linha de MDP para continuarmos atendendo a indústria brasileira. O que vemos? Essa crise está horrível, os números estão péssimos desde 2014 que o mercado vem caindo, porém mais cedo ou mais tarde vai voltar e o que fica é todo esse investimento que temos em excelência de custo, tendo custo competitivo, a Berneck tem uma estrutura super enxuta, focamos em reduzir custo. Um dos hinos, digamos assim, do nosso presidente aqui dentro é “custo é que nem unha, toda semana você tem que cortar”. Acho que todo mundo trabalha isso muito bem aqui, então prezamos de mais pela qualidade, por isso investimos em tecnologia que nos permita produzir produtos da mais alta qualidade para que a gente tenha um relacionamento positivo com o cliente, não queremos que nossa negociação se resuma só em preço, então qualidade é importante, uma flexibilidade no serviço, para sempre estar atendendo o cliente bem. Lógico que nesse momento a gente se voltou para a produção excedente do MDP para exportação.

eMóbile: A Berneck foi pioneira no lançamento do MDP, como está a atuação neste mercado atualmente?

Graça: A indústria brasileira vem passando por dificuldades e o MDP é voltado para a indústria moveleira, que está na mesma situação. Desde 2014 que o segmento do produto MDP vem caindo no mercado e seguramente esse ano não vai ser diferente. Teve uma queda considerável em 2014, em 2015 foi um grande tombo, foi quase 15% de redução de produto, e esse ano vai ter uma queda novamente.

eMóbile: E o que vocês esperam para 2017?

Graça: Acreditamos em pelo menos uma estabilização dos volumes que estarão acontecendo em 2016. Já tivemos volumes muito maiores no mercado brasileiro. A nossa expectativa é que a economia brasileira vai demorar bastante para voltar, vemos alguns economistas falando para o segundo semestre do ano que vem já começa a melhorar, escutamos PIB positivo no ano que vem. A Berneck não acha que nada disso vai acontecer, estamos com uma expectativa quem sabe em 2019 começar a inverter a curva, tem que se preparar para isso.

eMóbile: Ter uma boa atuação no mercado externo é um grande desafio para a maioria das empresas, como a Berneck mantém bons resultados fora do Brasil?

Graça: Exportamos há quase meio século, a Berneck tem um histórico de exportação de quase 50 anos, sempre exportamos. Temos o que chamamos de política de exportação, mesmo em época ruim, que o dólar está ruim, que não está deixando margem boa, a gente continua exportando. Isso traz um fortalecimento no relacionamento que a gente tem lá fora, esse é um ponto. Mantemos internamente uma estrutura para exportação, temos profissionais de ponta, altamente capacitados o tempo inteiro que estão lá trabalhando. Quando vem o momento que precisamos destinar um volume maior para o mercado externo, nós já estamos estruturados. Ao longo desse tempo, nas diversas linhas de produtos que a gente teve, a Berneck já produziu compensados, lâmina faqueada de madeira, até portas, todos esses diferentes produtos destinávamos um bom volume ao mercado externo. Fomos adquirindo um know-how de conhecimento para o que precisa ou não para ter uma boa atuação no mercado externo. Lógico que uma coisa fundamental é você ter qualidade, ter procedimentos no processo de produção, controles, isso tudo é muito importante porque quando você vende lá fora uma reclamação torna-se muito custosa. Às vezes está trabalhando com zero de margem, com uma margem muito reduzida e uma reclamação dessas pode afetar bastante a empresa, então tem que ter os controles de qualidade muito bem aferidos.

eMóbile: A Berneck completa 65 anos em janeiro, o que podemos esperar para a data?

Graça: A empresa sempre comemorou com trabalho, mas estamos com um selo comemorativo que vamos utilizar em todos os materiais ao longo do ano que vem. Estamos fazendo a publicação de um livro com a história do seu Bernardo, que foi o fundador da empresa, e como a empresa chegou onde ela está hoje, é um livro bem interessante, vai sair no começo do ano que vem, mas, estamos em contenção de gastos, então, nada de muito especial além disso. Bastante movimento interno, algumas campanhas, estamos estudando fazer uma corrida, um circuito de 5km para atender os funcionários, mas é coisa interna, externa acho que nada de especial.


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