Entrevista: exportações da indústria moveleira brasileira

Professor de relações internacionais da ESPM e do Departamento de Economia da FEA/PUC-SP, Diego Bonaldo Coelho aponta alguns motivos para as baixas exportações da indústria moveleira brasileira

Publicado em 9 de janeiro de 2018 | 8:00 |Por: Thiago Rodrigo Pereira da Silva

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Segundo dados do Relatório Brasil Móveis 2016, elaborado pelo Iemi – Inteligência de Mercado, o País representa 3,2% do total mundial fabricado em 2015. Praticamente toda essa produção é destinada ao mercado interno e, consequentemente, é fraca a participação de exportações da indústria moveleira brasileira. Assim, no comércio internacional, a produção de móveis do Brasil tem uma participação modesta de 0,4% de mobiliário exportado.

O professor de relações internacionais da ESPM e do Departamento de Economia da FEA/PUC-SP, Diego Bonaldo Coelho, pontua que existem várias razões que explicam o baixo resultado em exportações da indústria moveleira brasileira. Como se sabe, com o consumo da economia nacional atendida pela produção local há um viés antiexportação. “Soma-se a tais questões, também a falta de competitividade da indústria nacional ante os principais concorrentes estrangeiros nos mercados internacionais”, explica. Veja mais abaixo e não deixe de conferir o Especial Exportação na edição 280 da Móbile Fornecedores.

Portal eMóbile | Com o tamanho que o Brasil possui, por que não produz mais móveis para se tornar também um grande exportador?
Diego Bonaldo Coelho | Na verdade, o tamanho do país não tem muito a ver com produção e exportação. Questões associadas a desempenho de produção e exportação (inserção internacional) estão arraigadas em competitividade, cujas determinantes tendem a ser: produtividade e valor, os quais decorrem de inovações, investimentos em P&D, design, qualidade da mão de obra, etc. Ou seja, isso vale tanto para empresas quanto para países: para exportar, não precisa ser grande, mas competitivo. Veja o caso da Itália, por exemplo. País menor que o Brasil em vários aspectos (econômicos, territoriais e demográficos), porém, uma potência de empresas exportadoras em alguns setores manufatureiros. Em alguns segmentos de móveis, por exemplo, principalmente aqueles de maior valor adicionado (tendo como diferencial o design), possuem empresas que se posicionam entre as maiores exportadoras do mundo, rivalizando com a origem alemã.

Portal eMóbile | Na sua visão, quais as razões para o cenário atual das exportações da indústria moveleira brasileira?
Bonaldo Coelho | As exportações da indústria moveleira brasileira podem ser consideradas tímidas, se analisado o seu potencial. Nos principais segmentos do setor, o Brasil não chega a estar entre as 20 principais origens exportadores de móveis nos últimos três anos. Existem várias razões que explicam esse resultado em exportações. Dentre eles, pode-se destacar o tamanho do mercado interno brasileiro que, a despeito de ser grande, é relativamente fechado (maior nível de protecionismo tarifário) quando comparado a outros importantes mercados – ou seja, majoritária parte do consumo da economia nacional é atendida pela produção local, com participação marginal dos importados.
Há, dessa forma, um viés antiexportação dos setores nacionais, nutrido por mercado relevante e relativamente protegido. Soma-se a tais questões, também, falta de competitividade da indústria nacional ante principais concorrentes estrangeiros nos mercados internacionais, sejam naqueles que ofertam produtos intensivos em escala e nos quais custos de produção são determinantes, como a China, dado que o Brasil tem problemas de várias ordens microeconômicas nesse campo, assim como diante daqueles em segmentos fortes em valor, a exemplo de Itália e Alemanha, em que o Brasil ainda precisa investir mais em design e posicionamento (como algumas empresas nacionais já atentaram e começam a se destacar, vide associados à Abimad).

Portal eMóbile | O que se espera, por parte do governo, com relação a apoios às exportações da indústria moveleira brasileira e outras ações para estimular vendas de móveis para o mercado externo?
Bonaldo Coelho | O Governo brasileiro vem fazendo a sua parte. E, a meu ver, da maneira mais adequada do que já fora feito em tempos passados. É importante observar que as exportações da indústria moveleira brasileira (e de outros mercados) não decorrem apenas de questões macroeconômicas, como câmbio favorável, e microeconômicas do ambiente de negócios, como burocracia mais adequada. Tais dimensões são importantes. Mas é imprescindível que seja observado que a inserção internacional de uma empresa depende, fundamentalmente, de sua organização, estratégia e gestão capazes de dotá-la de competitividade em valor ofertado.
Ou seja, não basta o Brasil melhorar o seu ambiente micro e macroeconômico para exportação (o que é uma agenda mais do que necessária e atrasada, frisa-se) se as empresas não tiverem competência para se inserir internacionalmente, se planejarem para isso e realizarem com êxito esse processo. O governo brasileiro, principalmente por meio de sua relação com a Apex Brasil, tem atentado para isso, reforçando e direcionando as suas ações para questões fundamentais para internacionalização das empresas nacionais: capacitação e inteligência.
É condição sine quo non que o empresariado nacional comece a modificar a sua mentalidade, adquirindo uma orientação internacional – cuja visão de negócios passe a perceber, de fato, que a lógica contemporânea da competição é global e que uma empresa deve disputar mercados, quer nacionais quer internacionais. É preciso desenvolver um empresariado que veja o mundo como um campo de negócios e encontre na internacionalização um caminho pretendido pela sua empresa no tempo, como fator de competitividade e sustentabilidade.
Nesse sentido, trabalhar a mentalidade do empresário nacional de móveis para tal perspectiva e capacitá-lo à internacionalização um esforço necessário, que a Apex Brasil, por meio de programas como Peiex (veja reportagem na edição 283 da Móbile Fornecedores), Passaporte para o Mundo, Inter-Com, entre outros, tem buscado agir. O que, com uma boa base de inteligência de mercado, para observar oportunidades para empresas brasileiras no exterior, começa a pavimentar um horizonte que, se acompanhado de reformas microeconômicas no País, mais favorável para expansão internacional de empresas brasileiras.

Portal eMóbile | Quais são os desafios e medidas necessárias para alavancar as exportações da indústria moveleira brasileira?
Bonaldo Coelho | A resposta acima já coloca alguns pontos. Mas a inserção internacional do setor de móveis brasileiros depende, atualmente, basicamente:
1 – do desenvolvimento de uma mentalidade global de seu empresariado
2 – de capacitação
3 – inteligência de mercado
4 – avançados na cadeia de valor, principalmente em design e inovações de produtos e serviços associados
5 – melhoria microeconômica do Brasil (eficiência na burocracia de negócios, melhoria das infraestruturas etc.)
Ou seja, desafios consideráveis, mas os quais devem ser identificados, assumidos e enfrentados. Do contrário, continuarão a restringir nossa expansão internacional competitiva.

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Portal eMóbile | Em sua visão, quais medidas devem ser tomadas para aumentar as exportações da indústria moveleira brasileira, ainda mais para não diminuir sua produção em tempo de baixo consumo nacional?
Bonaldo Coelho | Para começar a exportar as empresas devem iniciar pelo desenvolvimento da mentalidade global de seus tomadores de decisão – os quais devem passar a entender a nova lógica de competição e mercados, assim como entender que a internacionalização é um processo de longo prazo. A exportação, por exemplo, não deve ser encarada como segunda opção ou saída rápida frente a arrefecimento de mercado interno ou mero “aproveitamento” de câmbio momentaneamente favorável (justamente nesse ponto que temos insucesso ou os voos de galinha).
Em seguida, e fundamental fazer a lição de casa, organizar e preparar a empresa porta para dentro: produção, gestão, inovação, design, etc. Para enfim, começar a inteligência para buscar mercados, promoção e inserção. Isso tudo demanda planejamento. Não existe internacionalização, mesmo a comercial (exportação), de curto prazo. Uma empresa brasileira que inicia a sua jornada e se internacionaliza com sucesso, leva, em média, de três a cinco anos nesse processo. E o retorno lá na frente, ainda. O empresário brasileiro de móveis tem essa visão? Está preparado? Por isso, as primeiras medidas são comportamentais e de gestão (porta para dentro). A questão da produção passa a ser tratada dentro desse planejamento, que passa a ser ajustado entre os mercados (internos e externos).

Portal eMóbile | Quais são as razões para uma indústria investir no mercado externo? Como ela deve investir? Há mudanças que a empresa deve fazer na produção, na atuação comercial, etc.?
Bonaldo Coelho | As razões para uma indústria investir na internacionalização são simples: a internacionalização tende a ser um desdobramento do crescimento de qualquer empresa competitiva. E, justamente, por meio dela, que a empresa expande, ganha produtividade e lucratividade. Dados de empresas internacionalizadas versus não internacionalizadas no Brasil demonstram performances favoráveis para as primeiras, inclusive em momentos de recessão nacional. E, ademais, se pensarmos em tempos de competição global, a não internacionalização pode significar no tempo e no limite: o encerramento da empresa ou a venda dela a um competidor estrangeiro, até porque níveis de protecionismo não necessariamente se sustentam no longo prazo, com agravante que aos extremamente competitivos internacionalmente isso pode ser contornado.

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