Produtividade na indústria moveleira ainda é baixa e ABDI pode

Entrevista: ABDI pontua como a indústria pode ser mais produtiva

ABDI considera o desenvolvimento industrial como a força motriz fundamental para o desenvolvimento nacional e a retomada do crescimento econômico

Publicado em 3 de Janeiro de 2018 | 8:00 |Por: Thiago Rodrigo Pereira da Silva

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Como a indústria moveleira pode melhorar a produtividade? Como aumentar a produtividade sem onerar os custos? Como obter ganho de produtividade focando na redução de desperdícios e melhorias dos processos de trabalho? Essas e outras questões fazem parte um rol de perguntas que contemplam um principais desafios para o aumento da produtividade na indústria moveleira brasileira.

Além disso, a organização baseada na aprendizagem é um caminho a ser seguido: enquanto que na organização baseada no desempenho obtém seus resultados no curto prazo, as baseadas na aprendizagem focam o longo prazo. Quem fala mais sobre esses e outros assuntos é a diretora de desenvolvimento tecnológico da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Maria Luisa Campos Machado Leal.

Para ela, a infraestrutura do Brasil não atende a produção o que prejudica maior produtividade, assim como outras fatores como sistema tributário complexo e a questão do câmbio. Internamente, Maria Luisa enxerga que as indústrias precisam ter melhores práticas gerenciais, entre outros, por meio da inovação e gestão. “Devemos qualificar cada vez mais a mão de obra brasileira para as necessidades de uma indústria cada vez mais competitiva, moderna e digitalizada, investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação em conexões com a indústria”, destaca a diretora.

Em âmbito mundial, a produtividade do trabalho no Brasil corresponde a 88% da média, mas em comparação com as economias avançadas. “Temos apenas um terço do índice registrado e apenas um quarto da produtividade americana”, ressalta. Da mesma forma, o País está 30% acima da média das economias emergentes e 85% das economias latino americanas, de acordo com o The Conference Board Index. “Temos um grande caminho a percorrer para que possamos estar em um nível aproximado das economias avançadas”, salienta. Confira a entrevista completa.

Portal eMóbile | Qual análise a ABDI faz da produtividade (relação entre Produção Física e Número de Horas Pagas) da indústria brasileira em geral?
Maria Luisa Campos Machado Leal | Um dos principais desafios da indústria brasileira é o aumento de sua produtividade. Além da perda do dinamismo econômico advindo das crises estruturais da economia, a produtividade na indústria apresenta uma tendência de queda em comparação com os países avançados, provocada por fatores internos e externos ao chão de fábrica. Externamente, a situação econômica internacional e a crise econômica provocaram uma desvalorização da moeda nacional, proporcionando um equilíbrio dos custos e uma maior competitividade internacional da indústria brasileira, o que gerou um superávit da balança comercial mais recentemente.

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No entanto, internamente, o cenário econômico negativo provocou uma diminuição dos investimentos e da demanda por produtos industrializados, causando uma queda de produtividade da indústria. Além disso, desafios históricos têm impedido um crescimento sustentável da economia e da indústria brasileira, tais como a redução da burocracia, a melhoria do ambiente de negócios, o aumento da inovação, a qualificação da mão de obra e até mesmo a reforma do sistema tributário.
Com uma visão de longo prazo, a ABDI acredita que a inovação e a tecnologia são os fatores preponderantes para o aumento real da produtividade, seja em escala nacional, regional ou global, com modificações em processos (que aumentam a produção física a partir dos mesmos fatores) e em tecnologias para novos produtos com maior valor agregado.
Outro fator de longo prazo, crucial para o aumento da produtividade brasileira, é a questão da qualificação e da capacitação da mão de obra. O Brasil avançou muito nos últimos vinte anos em relação à escolaridade média de sua população, mas grandes investimentos em educação são necessários, principalmente aqueles relacionados com as áreas produtivas, como ciência, tecnologia, engenharia, matemática etc., além do fortalecimento da integração entre a universidade e a indústria.

Divulgação ABDI

ABDI produtividade na indústria moveleira

Maria Luisa frisa que a ABDI considera o desenvolvimento industrial como a força motriz fundamental para o desenvolvimento nacional e a retomada do crescimento econômico

Apesar da estagnação da produtividade, a ABDI defende que a retomada do crescimento econômico, dos investimentos produtivos e da demanda das famílias poderá devolver ao país uma tendência de melhora da produtividade na indústria, trazendo novas oportunidades para superar velhos entraves.
A indústria brasileira precisa se reinventar. Para isso, são indispensáveis investimentos em ciência, tecnologia e inovação, por meio de políticas públicas e da força da iniciativa privada. Somente assim, o Brasil poderá retornar ao eixo de um desenvolvimento sustentado.

Portal eMóbile | Por que o País não consegue alavancar sua produtividade industrial?
Maria Luisa | Vários fatores influenciam no aumento da produtividade industrial, sejam eles externos ou internos. A infraestrutura não atende satisfatoriamente as próprias potencialidades da produção brasileira, com rodovias sucateadas, ferrovias em desuso, portos com variados problemas, aumentando os custos internos da produção. Além disso, um sistema tributário complexo, com um ambiente de negócios desfavorável ao empreendedorismo diminui o crescimento da produtividade no país.
Somam-se ainda outros fatores, como a questão do câmbio, a ferrenha competição interna de produtos importados (o que fez a indústria brasileira perder mercado) e a inserção internacional do país no comércio exterior.
Outro ponto de atenção é a gestão interna das indústrias, que precisam ter melhores práticas gerenciais, layout de chão de fábrica e ferramentas, novas formas organizacionais, além do aperfeiçoamento dos processos produtivos internos das empresas, principalmente por meio da inovação e gestão.
Nesse sentido, devemos qualificar cada vez mais a mão de obra brasileira para as necessidades de uma indústria cada vez mais competitiva, moderna e digitalizada, investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação em conexões com a indústria, além de simplificar nosso ambiente de negócios para que valorize a competitividade e a inovação.

Portal eMóbile | Como entraves como infraestrutura e alta carga tributária colaboram para não ter esse aumento da produtividade na indústria moveleira?
Maria Luisa | Abrir uma empresa no Brasil requer vários procedimentos diferentes que podem levar até três meses. Diversos estudos apontam que as indústrias gastam várias horas por ano por conta de formulários, papéis e cálculos de impostos, direcionando equipes para essas ações. A complexidade do sistema tributário brasileiro, aliada à alta carga tributária, penaliza produção, geração de empregos e competitividade da indústria brasileira. Adicionalmente, outro grande entrave para a produtividade é a infraestrutura deficiente. O aumento do custo de frete reflete-se no aumento nos custos de produção e do preço do produto final, seja no mercado interno ou externo.
A disponibilidade de energia barata e limpa também é outro fator de competitividade industrial. Décadas de baixo investimento ocasionaram uma insuficiência de infraestrutura capaz de sustentar o processo de crescimento econômico. Em certa medida, a baixa relação capital/trabalho da economia brasileira – apontada por alguns autores como uma das causas para a baixa produtividade do trabalho – está associada a um baixo estoque de capital em infraestrutura . O governo tem respondido a isso com ações direcionadas ao desenvolvimento da infraestrutura, como o Programa de Concessões.

Portal eMóbile | E em relação a mão de obra desqualificada?
Maria Luisa | Em relação à educação, já há certo consenso de que trabalhadores melhores qualificados possuem melhores condições materiais e físicas de produzir mais com menores custos e com melhor qualidade. O Brasil avançou na questão relacionada com o aumento da escolaridade da população. Na última década, houve um aumento de dois anos na média de estudo dos trabalhadores formais, de acordo com Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Apesar de ser um indicador importante em uma sociedade do conhecimento, esse aumento da escolaridade não se refletiu na melhora dos índices de produtividade. Uma das hipóteses se refere exatamente à falta de integração entre os conhecimentos produzidos pelo sistema educacional e o que a indústria precisa para se tornar mais competitiva (brecha de habilidades de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Houve uma expansão e estímulo ao ensino técnico por parte do Governo, como também no ensino universitário. Porém, precisamos levar a escola e a universidade para dentro da empresa, com treinamentos, estágios e integração entre a pesquisa e a inovação.

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Nesse sentido, volto a repetir que a tecnologia e a inovação são parte fundamental para o aumento da capacidade produtiva da indústria. O País tem uma produção de inovação modesta quando comparada a grandes países emergentes como China e Índia. Nos países avançados, como também nos asiáticos, o fomento da inovação e desenvolvimento tecnológico foram os pilares do crescimento do índice de produtividade desses países.
Dessa forma, devemos aumentar o investimento estratégico nessa área, simplificar procedimentos de compra de materiais de pesquisa e desenvolvimento e atuar de forma coordenada em políticas públicas de estímulo à inovação.

Portal eMóbile | Segundo a CNI, a produtividade do trabalho na indústria de transformação teve queda de 1,8% entre 2010 e 2015. Quais as razões para isso?
Maria Luisa | Houve uma melhora nos últimos dados. A produtividade física do trabalho na Indústria de Transformação apresentou uma alta de 0,5% em dezembro de 2016, decorrente do aumento de 1,5% da produção física e 1,0% nas horas trabalhadas, de acordo com o índice de produtividade do Depecon/Fiesp, a partir dos dados da PIM-PF do IBGE e indicadores industrias da CNI. As principais preocupações já foram mencionadas, como baixas taxas de inovação, baixa taxa de qualificação dos trabalhadores, infraestrutura, práticas de gestão interna, baixo grau de investimentos em novos maquinários e equipamentos industriais etc. Com a retomada do dinamismo econômico, do investimento e da redução da taxa de juros, a perda de produtividade tende a ser menor.

Divulgação

ABDI produtividade na indústria moveleira

Produtividade do trabalho efetiva

Portal eMóbile | O que a indústria brasileira precisa fazer para ser representativa para o PIB do País? Como ela pode melhorar sua produtividade e competitividade?
Maria Luisa | A ABDI considera o desenvolvimento industrial como a força motriz fundamental para o desenvolvimento nacional e a retomada do crescimento econômico. Não há casos de economias avançadas que não se industrializaram. A indústria de transformação é reconhecidamente o agente de mudança nessas economias, retirando milhões de pessoas da pobreza.
Os bens industriais expressam maior valor agregado, a competitividade e a inovação de um país dentro da sociedade internacional. É o principal setor na remuneração de salários e o responsável pelo avanço técnico e tecnológico para todos os outros setores, por meio do chamado efeito transbordamento da produção industrial em setores mais intensivos em tecnologia. À medida que o país se desenvolve, a relevância da indústria está justamente no seu poder de alavancar a produtividade, as exportações e a inovação em todos os outros setores. O desenvolvimento industrial ainda se conecta com os desafios prementes do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável, à medida que apoia a redução dos níveis de consumo energético e de recursos naturais, além de criar novos modelos de geração de energia limpa.

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Nesse sentido, a perda do dinamismo industrial no Brasil, principal motor de crescimento de uma economia avançada, ajuda a explicar em parte a recessão e a crise fiscal atual. Para esse desafio, a política econômica deve ter como um de seus principais pilares o desenvolvimento da indústria e dos serviços modernos de sua cadeia produtiva, o que requer maiores debates sobre taxa de câmbio, exportações, importação de máquinas e equipamentos, taxa de juros, salários, regulamentação trabalhista, infraestrutura e apoio ao desenvolvimento tecnológico.
Nesse raciocínio, a melhoria da produtividade torna-se um dos principais instrumentos de crescimento atual. O aumento da eficiência, desde a linha de produção até o marketing do produto final, deve ser apoiado, além da qualificação das habilidades dos trabalhadores e importantes reformas que já estão em pauta para reduzir as fraquezas da economia, com foco nos setores produtivos e intensivos em tecnologia. O debate sobre a eficiência do setor produtivo deve estar no centro da agenda governamental, aliada ao fortalecimento da indústria e do setor educacional. Dessa forma, a melhora da competitividade e da produtividade é a razão para a retomada do seu protagonismo na economia e crescimento do país.

Portal eMóbile | Sobre a indústria moveleira em específico, como isso pode ser feito? Como aumentar a produtividade sem onerar os custos?
Maria Luisa | Precisamos melhorar a gestão interna das indústrias, com melhores práticas gerenciais, layout de chão de fábrica e ferramentas eficientes que eliminem desperdícios de todos os tipos, novas formas organizacionais de produção e linhas de corte, etc. Muito pode ser feito para aperfeiçoar os processos produtivos internos das empresas e aumentar a produtividade da indústria moveleira. Principalmente por meio da inovação e da gestão, repensar o produto, as tecnologias utilizadas na produção e embarcadas no produto para aumentar a capacidade produtiva e buscar novos mercados internacionais.

Portal eMóbile | Para a produtividade na indústria moveleira, como se pode obter ganhos focando na redução de desperdícios e melhorias dos processos de trabalho?
Maria Luisa | Vários são os ganhos de produtividade que podem reduzir desperdícios e melhorar os processos produtivos. Dessa forma, para detectar problemas como excesso de estoque e deslocamento desnecessário de funcionários, e aplicar soluções com base na metodologia de manufatura enxuta, a ABDI criou, juntamente com outros parceiros, o programa Brasil Mais Produtivo. O Programa é uma resposta rápida para o dilema da baixa produtividade da indústria brasileira. Visa atender três mil empresas industriais de pequeno e médio porte em todo o Brasil, com o objetivo de aumentar, em pelo menos 20%, a produtividade no setor, a partir da aplicação de ferramentas Lean. O conceito baseia-se na redução de sete tipos de desperdícios (superprodução, tempo de espera, transporte, excesso de processamento, inventário, movimento e defeitos). A iniciativa é uma realização do MDIC, Senai, Apex Brasil e ABDI, com a parceria do Sebrae e do BNDES.

Portal eMóbile | Quais ações a ABDI executa em colaboração para as indústrias otimizarem seu desempenho produtivo?
Maria Luisa | A ABDI atua rotineiramente de forma colaborativa em diversas iniciativas e ações para a otimização do desempenho produtivo do setor industrial. Além do já citado Programa Brasil Mais Produtivo, focado na melhoria da competitividade no chão de fábrica, temos também projetos nas áreas de Defesa, Aeronáutico, Automotivo, Saúde, Construção Civil, Cidades Inteligentes, Energias Renováveis, etc. Ainda há o Programa Nacional Conexão Startup Indústria, que tem o objetivo de promover o ambiente de negócios entre startups e indústrias, atuando com foco em ações de integração digital das diferentes etapas da cadeia de valor dos produtos industriais.


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