Balança comercial pode fechar no negativo em 2014

Segundo dados da Funcex, balança comercial brasileira deve fechar o ano com um superávit ligeiramente positivo

Publicado em 29 de dezembro de 2014 | 14:48 |Por: Julia Zillig Rodrigues

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A balança comercial brasileira seguiu em 2014 “desviando das pedras no caminho”. No entanto, apesar desse fato, segundo os dados mais recentes da Fundação de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), deve fechar 2014 com saldo negativo próximo a US$ 3 bilhões. Até a poucos meses, havia uma expectativa de um saldo levemente positivo, mas em novembro as exportações totalizaram US$ 15,6 nilhões, registrando retração de 25% na comparação com o mesmo mês de 2013. Já as importações somaram US$ 18 bilhões, acusando queda de 5,9%. Foi o pior resultado da balança comercial desde 1997, elevando o déficit acumulado para US$ 4,2 bilhões.  Para falar sobre o desempenho do comércio exterior em 2014, a economista da Funcex, Daiane Santos, concedeu a seguinte entrevista para o Portal eMobile:

Divulgação

Daiane Santos

Para Daiane Santos, as estimativas para a balança comercial no início de 2014 eram promissoras, porém o resultado não foi tão expressivo

Portal eMobile – A balança comercial brasileira está enfrentando uma combinação perversa: ao mesmo tempo em que os preços das commodities estão em queda, a indústria brasileira carrega problemas como baixa competitividade, o que dificulta a exportação de seus produtos. Esse cenário já era esperado? Quais fatores influenciam nesse movimento?
Daiane Santos –
Em 2013, o saldo da balança comercial foi de US$ 2,6 bilhões, um modesto superávit que possivelmente não será alcançado no ano de 2014. Os preços das principais commodities exportadas certamente contribuirão para o magro resultado da balança comercial no final o ano. Além desses fatores vale lembrar que em 2014 a corrente de comércio com a Argentina diminuiu significativamente, o que prejudicará também o saldo do BC na comparação com o do ano de 2013.

O ano de 2014 começou com expectativas mais otimistas em relação ao comportamento da balança comercial, que poderia ter um resultado melhor do que o obtido em 2013, quando o superávit foi de US$ 2,5 milhões, o mais baixo em 13 anos. Houve mudanças no meio do caminho? Quais foram esses desvios de rota?
Daiane – No início de 2014, as previsões para o saldo da balança comercial apontavam para a possibilidade de um incremento bastante expressivo do superávit comercial, comparativamente ao resultado alcançado no ano anterior. A expectativa de um crescimento mais vigoroso do comercio mundial, as expectativas de uma expansão bastante promissora da economia norte-americana, a previsão de mais uma safra recorde no Brasil, a desvalorização do câmbio e, principalmente, a expectativa de um aumento na produção doméstica de petróleo e gás, contribuiriam para uma expressiva redução do déficit no comércio externo de petróleo e derivados, eram os fatores a alimentar o otimismo. No fim de janeiro, a média das projeções do mercado projetava um saldo comercial de US$ 8,25 bilhões, enquanto o Banco Central previa um superávit de US$ 10 bilhões.

De fato tivemos ótimas safras e aumento na produção doméstica de petróleo e gás, contudo, a recuperação da economia norte-americana não ocorre de forma vigorosa. Em 2013, os Estados Unidos cresceram 2,2% enfrentando um ajuste fiscal no primeiro semestre, que ficou conhecido por abismo fiscal. A expectativa era de que sem o abismo fiscal o crescimento seria mais próximo de 3% em 2014. A saída do programa de compras de ativos de longo prazo iniciou um forte processo de ajustamento das taxas longas. A rentabilidade do título do tesouro americano de dez anos saiu de 1,6% para 2,3%. Esta correção nas taxas longas produziu um recuo no investimento imobiliário.

O acompanhamento da atividade no segundo semestre indica que a economia iniciou o terceiro trimestre com crescimento de 2,5% com relação ao trimestre anterior na taxa anualizada. Se a economia americana mantiver esse ritmo até o final do ano, há forte indício de que a economia feche o ano de 2014 com expansão de 2%, um resultado abaixo e próximo dos 2,2% de 2013 ante 2012.

Como já mencionado agravou-se também o fluxo comercial com a Argentina que evidentemente gerou uma piora no saldo comercial além do previsto no início do ano.

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Segundo expectativas da Funcex, a balança comercial brasileira fecha 2014 com saldo levemente positivo, de US$ 1,5 bilhão

Segundo expectativas da Funcex, a balança comercial brasileira fecha 2014 com saldo levemente positivo, de US$ 1,5 bilhão

Quais são os produtos que foram responsáveis por manter um certo nível de otimismo para os resultados da balança comercial brasileira em 2014?
Daiane –
Em 2013 as exportações líquidas de petróleo e derivados mostraram saldo negativo de US$ 25,5 bilhões em virtude de exportação no valor de US$ 17,1 bilhões e importação no valor de US$ 42,6 bilhões. No acumulado até agosto de 2014, o quadro mostra um saldo negativo bem menor do que o apresentado neste mesmo período de 2013. No acumulado até agosto, o saldo negativo da conta petróleo e derivados era de US$ 19,9 bilhões e no acumulado deste ano o saldo negativo foi de US$ 14,2 bilhões, devido a exportações no valor de US$ 13,9 bilhões e importações no valor de 28,1 bilhões. A expectativa para o saldo da conta petróleo e derivados é de que seja deficitário em aproximadamente US$ 18 bilhões, o que ocorrerá caso as exportações continuem crescendo a um ritmo razoavelmente acelerado nos próximos quatro meses e as importações de petróleo e derivados continuarem a cair na mesma magnitude do ocorrido até agosto (-4,7%).

A valorização do Real frente ao dólar reduziu a rentabilidade do exportador brasileiro. Qual é o caminho que as indústrias devem tomar para conseguir reverter esse cenário?
Daiane –
O índice de rentabilidade das exportações registrou forte queda de 6,9% em julho de 2014 na comparação com julho do ano passado, em virtude da diminuição dos preços das exportações (-2,1%), do aumento dos custos de produção (3,9%) e da valorização do câmbio nominal (1,2%). Durante um bom período, a rentabilidade dos produtos brasileiros exportados teve contribuição significativa da desvalorização cambial, fato que não ocorreu nos últimos meses. O caminho que as indústrias podem tomar está ligado à diminuição dos custos de produção e aumento de competitividade.

Qual tem sido o papel do governo para estimular a retomada das exportações no Brasil? Considera que o Reintegra é suficiente para desonerar o produto brasileiro e torná-lo competitivo no que diz respeito a preço?
Daiane –
O programa Reintegra que vigorou até fim do ano passado devolvia 3% do faturamento das empresas exportadoras. A ideia, para o ano vigente, é que se tenha uma faixa que varie entre 0,1% e 3% do faturamento. A infraestrutura de transporte da América do Sul é ainda insuficiente e precária e tem barreiras geográficas importantes. As comunicações são difíceis. Diversos estudos mostram que a redução dos custos logísticos são de longe mais importantes do que a redução das barreiras tarifárias. Investir em infraestrutura de transportes é essencial.

O prognóstico de resultados desfavoráveis também afeta não somente a exportação de commodities, mas também de manufaturados. Quais mercados estão prejudicando esses resultados? A Argentina é um deles?
Daiane –
As exportações com destino a nosso vizinho cresceram 9% em 2013, alcançando quase US$ 20 bilhões de reais. O aumento foi alavancado, em grande parte, pelo incremento nas vendas em manufaturados, especificamente, no complexo automotivo, impulsionadas pelas crescentes restrições impostas na Argentina para o acesso ao mercado de divisas, contribuindo para transformar o automóvel em reserva de valor. No ano de 2013 foram exportados US$ 18 bilhões em produtos manufaturados para a Argentina, no acumulado até agosto de 2014 o Brasil exportou apenas US$ 8,7 bilhões para a Argentina em manufaturados, 26,6% a menos do que exportou neste mesmo período em 2013.

O atual cenário argentino é ainda mais delicado do que o previsto no início do ano. O PIB argentino está caindo – com perspectivas de contração superior a 2% em 2014. A inflação anual, divulgada pelo governo argentino está em torno de 20%, contudo, alguns economistas avaliam a inflação em torno de 40%. As reservas internacionais, de US$ 28,3 bilhões, são relativamente baixas para o tamanho do país – podem vir a cair caso não se resolva o imbróglio com os fundos “abutres” – que não aceitaram a reestruturação da dívida e, beneficiados por uma decisão da Justiça americana, levaram o país a um calote técnico em 30 de julho. Dado o atual cenário econômico do país vizinho, espera-se agora uma contração ainda maior, uma redução de US$ 5,2 bilhões – aproximadamente -27% em relação ao total exportado para a Argentina em 2013.

Qual é o cenário que a senhora vislumbra para a balança comercial em 2015? Podemos esperar boas notícias?
Daiane – Segundo os últimos dados divulgados pela Funcex, em novembro as exportações totalizaram US$ 15,6 bilhões, apresentando retração de 25% na comparação com o mesmo mês de 2013, as importações totais somaram US$ 18 bilhões, com queda de 5,9% em relação ao mesmo mês do ano passado. Em decorrência disso, a balança comercial atingiu o pior saldo para o mês desde 1997, resultado que elevou o déficit acumulado no ano para US$ 4,2 bilhões. Esse resultado corrobora com a expectativa de que a balança comercial encerre o ano com saldo negativo provavelmente em nível próximo de US$ 3 bilhões.


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